“Aqui somos uma família” e outras ameaças corporativas em forma de poesia organizacional

“Aqui somos uma família” e outras ameaças corporativas em forma de poesia organizacional

Existe algo mais preocupante no universo corporativo do que ouvir, com um sorriso engessado e um crachá pendurado, a frase: “Aqui somos uma família”? Spoiler: NÃO. Essa declaração deveria vir com sirenes, placas de PERIGO e um botão de pânico. Afinal, se você está num lugar onde suas sinapses neurais pré-frontais começam a derreter ao som de discursos emocionados, parabéns, você encontrou o RH versão novela mexicana.

Porque sejamos francos: famílias compartilham afeto, direitos, heranças e por muitas vezes até a Netflix. Empresas, por outro lado, compartilham metas inalcançáveis, reuniões eternas e uma gloriosa planilha que já deveria ter sido atualizada ontem.

A Romantização: quando a empresa te dá flores… e depois te cobra por elas

No mundo corporativo, tudo é semântico. O “líder” é um gestor fascinado por frases de LinkedIn; o “colaborador” é aquele que assina o crachá e a alma; o “desafio” é um pepino que ninguém quis cortar; e a “oportunidade de desenvolvimento” é aquele trabalho extra que você faz sorrindo porque “vai ser bom para seu crescimento”.

Sem falar na clássica: “Aqui todo mundo põe a mão na massa” – dito geralmente por quem nunca viu a massa. E quando o discurso é sobre missão, propósito e um sonho maior, prepare-se: o pesadelo vem em forma de overwork e PowerPoint motivacional com trilha sonora épica.

Blá Blá Blá Corporativo: promessas no ar e contratos no limbo

Desde a entrevista, o verbo é amar: amar seu crescimento, amar seu plano de carreira, amar a empresa que “te dá asas”. O detalhe? Nada disso está no papel. A vaga é uma entidade mística sem descrição, metas mudam mais que tendências do TikTok e o contrato… bem, o contrato é aquela cena deletada dos filmes, desnecessária para SUA história na empresa.

Crítica? Só se for à sua existência

Feedbacks deixam de ser sobre trabalho e viram uma análise clínica da sua personalidade: “Você é difícil de lidar”, “leva tudo para o pessoal”, “tem que ser mais leve”. Tudo com o tom passivo-agressivo de quem aprendeu a invalidar com classe. Porque, no fundo, não é sobre melhorar, é sobre SILENCIAR.

A Cultura: internacional no nome, medieval na prática

A empresa tem CEO, CFO, COO, CTO… mas não tem noção. Reuniões com estrangeiros viram exercícios de paciência e sono, e toda a estrutura gringa serve mais para justificar processos burocráticos do que para inspirar inovação. É a globalização do tédio.


Conclusão: você é profissional, não personagem de uma novela empresarial

Você estudou, se dedicou, madrugou e batalhou para chegar até aqui. E não, não merece ser a base do castelo enquanto o topo brinda com espumante e palavras em inglês. Você é essencial. Você é a engrenagem, não o enfeite corporativo.

Trabalho é trabalho. Família? Só fora do expediente.

Fernando Divac
Fernando Divac
CEO
idfgr.net

Designer, web designer, especialista em segurança digital, ethical hacker, mestre em inovação disruptiva na TI desde 1990, jogador de basquete veterano e eterno "rapaz da TI".

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